6 de junho de 2026

Como o Brasil pode se defender na 3ª Guerra Mundial?, por Fernando Marcelino

Retomar sua soberania é conquistar soberania política, isso é, capacidade de decisão do Estado orientado pelos interesses nacionais.
Arte Urbana - Reprodução

Brasil enfrenta vulnerabilidade em guerra global por dependência de tecnologia e bloqueios em cadeias de suprimentos.
Necessário fortalecer defesa conjunta, desenvolver sistemas antiaéreos e ampliar indústria militar para dissuasão eficaz.
Estratégia inclui autonomia política, estoques estratégicos e proteção cibernética para garantir soberania e sobrevivência.

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Como o Brasil pode se defender na 3ª Guerra Mundial?

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por Fernando Marcelino

Para analisar o que o Brasil precisaria fazer para se defender em um cenário de Terceira Guerra Mundial, é necessário primeiro definir a natureza desse conflito. Diferentemente de um ataque pontual dos EUA, uma guerra global envolveria bloqueios navais, ataques a navios mercantes e colapso das cadeias de suprimento e ataques a infraestruturas críticas (redes elétricas, sistemas financeiros, comunicações), além da possibilidade de ferramentas assimétricas, especialmente pelas Potências Médias.

A nova estratégia de defesa dos EUA, que elevou o Hemisfério Ocidental a “espaço de interesse imediato”, escancarou a vulnerabilidade brasileira. Apesar de projetos como os caças Gripen (Suécia) e os submarinos (França), o Brasil ainda é dependente de tecnologia e componentes estrangeiros, muitos dos quais sob controle dos EUA. Em um conflito, essa dependência poderia significar um embargo e a paralisação de equipamentos críticos.

Para lidar com a situação emergente, o Brasil precisaria realizar uma mudança de paradigma na sua política de defesa, deixando de lado a histórica dependência e subordinação para construir uma capacidade crível de dissuasão. O objetivo não seria vencer os EUA militarmente, algo impossível, mas sim tornar o custo de um ataque inaceitavelmente alto para o agressor. Isso significa desenvolver a capacidade de negar ao agressor o uso do seu espaço estratégico (terrestre, marítimo e aéreo) e impor-lhe perdas significativas, de modo que a relação custo-benefício da agressão se torne desfavorável.

O melhor seria ter um Programa Mínimo para garantir a sobrevivência e não ser arrastado para o conflito e um Programa Máximo para tornar o Brasil um ator relevante e seguro no tabuleiro global. O Programa Mínimo envolve garantir a integridade territorial e a sobrevivência da população. Neste cenário, o Brasil adota uma postura estritamente defensiva e isolacionista. O foco é garantir que o país não colapse por dentro enquanto o mundo queima lá fora. O Mínimo é urgente e factível. O Máximo é o projeto de nação que o Brasil precisaria abraçar se quisesse realmente assentar à mesa dos “grandes” em um mundo em guerra. Com ele, o Brasil não apenas se defende, mas se torna um “polo de poder” no mundo multipolar, capaz de negociar com qualquer bloco sem ser vassalo de nenhum.

Essa reorientação teria diversos eixos. Atualmente, Exército, Marinha e Aeronáutica planejam e executam suas estratégias de forma significativamente independente, o que fragmenta os esforços e recursos. É preciso fortalecer o Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas para que ele tenha autoridade real de planejamento e comando sobre as três forças, promovendo a interoperabilidade e a atuação coordenada. A doutrina de operações conjuntas é essencial para maximizar o poder de combate em qualquer cenário.

Para dar concretude a uma estratégia de dissuasão, o Brasil precisaria superar suas atuais defasagens e investir em áreas vitais. O país não possui defesa antiaérea suficiente para servir como dissuasão a uma ação estrangeira. A falta de uma camada robusta de mísseis superfície-ar de longo alcance deixa o território nacional vulnerável a ataques aéreos. Seria preciso desenvolver sistemas de defesa aérea de última geração, capazes de proteger centros nevrálgicos (capitais, bases militares, refinarias, hidrelétricas e infraestrutura crítica) e criar “bolhas” de exclusão aérea. Isso inclui radares de longo alcance e mísseis capazes de engajar ameaças a diferentes altitudes. Além disso, investir pesadamente em mísseis balísticos e de cruzeiro, drones e uma marinha assimétrica, para criar essa capacidade de negação.

É preciso, em primeiro lugar, ter força suficiente para impedir uma incursão terrestre vinda dos vizinhos (que podem ser pressionados por potências) ou uma tentativa de desembarque anfíbio. Garantir que a Força Aérea possa defender os centros nevrálgicos (Brasília, SP, RJ, usinas de Itaipu/ Belo Monte) com drones e defesa antiaérea de ponta. É de suma importância impedir que potências beligerantes usem a Amazônia ou o Atlântico Sul como base de operações com o reforço na presença do Exército na Amazônia com batalhões de selva altamente móveis e autônomos e conseguir negar o uso do espaço aéreo amazônico com uma malha densa de radares e baterias de mísseis antiaéreos de curto/médio alcance. Para o controle da ponta de lança no nordeste, poderia se militarizar a ilha de Fernando de Noronha e desenvolver capacidade de lançamento de foguetes a partir do Centro de Lançamento de Alcântara (MA), com foguetes de grande porte, mísseis balísticos e de cruzeiro de longo alcance (estacionários ou móveis), capazes de atingir qualquer país que ameace o Brasil. Além disso, é necessário dominar a construção de fragatas e corvetas, com produção em série de navios para vigilância da “Amazônia Azul”.

Para o Brasil, é essencial fortalecer a Base Industrial de Defesa para garantir autonomia na produção de armamentos, visando pelo menos a autossuficiência na produção de todo tipo de munição, uma das dependências mais críticas. Munição é um bem de consumo em treinamento e conflito. Sem produção própria, as Forças Armadas param em poucas semanas de combate. Por isso, é crucial garantir estoques estratégicos de munição de todos os calibres utilizados pelas Forças Armadas. Também é preciso criar uma indústria nacional de microchips e componentes eletrônicos para uso militar. Expandir a Embraer para construir todos os tipos de aeronaves militares, inclusive caças de 5ª geração (sucessores do Gripen) e Veículos Aéreos Não Tripulados (VANTs) de ataque. O espaço é o novo domínio da guerra. Sem ele, o Brasil estaria cego e surdo. É preciso construir uma constelação de satélites próprios (não depender do GPS americano ou do Beidou chinês) para imagens de alta resolução, comunicações seguras e navegação. Criar um projeto especial para dominar em pouco tempo a tecnologia de hipersônicos, atualmente um diferencial das grandes potências. E enfim fechar o ciclo do ciclo do combustível nuclear (enriquecimento de urânio em escala industrial).

O Brasil já é um gigante alimentar e energético, mas depende de insumos importados (fertilizantes, defensivos agrícolas, peças para refinarias). No contexto de uma guerra de grande escala, seria necessário criar estoques estratégicos gigantescos de fertilizantes (5 anos de consumo), expandir rapidamente a produção nacional de potássio e fosfato, duplicar a capacidade de refino de petróleo para processar 100% do petróleo nacional, eliminando a dependência de derivados importados (diesel, gasolina, querosene de aviação) e garantir a segurança física das plataformas de petróleo (protegê-las contra ataques navais ou cibernéticos). Em uma guerra global, o Brasil seria alvo de ataques cibernéticos tentando desestabilizar o governo e a economia, mesmo sem um tiro ser disparado. Por isso, é crucial blindar ciberneticamente o sistema elétrico nacional, o sistema financeiro e as comunicações com uma “internet de guerra” nacional, que possa operar isolada da infraestrutura global se os cabos submarinos forem cortados ou comprometidos.

É improvável que o Brasil seja capaz de realizar o que é necessário para garantir sua sobrevivência num mundo de “todos contra todos”. Sua autonomia política está longe de ser um dado da realidade, a soberania básica não é praticada, o Estado é profundamente disfuncional e desarticulado, as classes dominantes são inertes e entreguistas, não existe uma ideologia norteadora capaz de dar continuidade ao processo de desenvolvimento nacional. Porém, a superação destes desafios se torna cada vez mais urgente para que o Brasil sobreviva ao longo período de guerras e crises que estamos vivendo.

A pré-condição para o Brasil retomar sua soberania é conquistar soberania política, isso é, capacidade de decisão do Estado orientado pelos interesses nacionais. Emplacar uma Grande Estratégia que responda apenas aos seus interesses, sem ser influenciado ou se adequar às estratégias de dominação de potências estrangeiras. O essencial é que o Brasil execute uma estratégia de desenvolvimento nacional no mais alto nível de tomada de decisão, capaz de utilizar-se de todos os instrumentos do poder nacional para apoiar uma visão estratégica na busca dos objetivos nacionais. Sem isso, nada efetivo poderá ser feito.

Fernando Marcelino é natural de Curitiba, pós-doutor em Política Públicas e Planejamento Urbano na UFPR, autor de diversos livros sobre a China, entre os quais Introdução ao Planejamento na China, A Revolução das Cidades Inteligentes na China, Reflexões sobre o Socialismo Chinês, Deng Xiaoping: as ideias que transformaram a China na superpotência do século XXI, A Revolução da Agricultura Inteligente na China, A China se prepara para o declínio dos EUA: Trump, guerra comercial e a Nova Desordem Mundial e A Revolução das ferrovias de alta velocidade na China (no prelo). Militante do MPM – Movimento Popular por Moradia.

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